Notícias da Igreja CatólicaComentários às Leituras e Lectio Divina para este XXIII Domingo do Tempo ComumData: 04/09/2010 Comentários 1ª Leitura – Sabedoria 9, 13-18 Quem pode imaginar o que quer o Senhor? O texto tirado do livro da Sabedoria, escrito quase às vésperas da era cristã, é uma oração solene colocada nos lábios de Salomão, símbolo do perfeito e sábio soberano. No pedido de revelação, Salomão faz quatro perguntas retóricas sobre a possibilidade de conhecer a vontade de Deus e, portanto, sobre o modo correto de agir. A resposta às perguntas é evidentemente negativa: a sabedoria pode ser dada só pela graça de Deus. Aparece, assim, a ocasião para descrever o limite de criatura do ser humano e se faz isso través de reminiscências platônicas. A tensão interior corpo-alma é, porém, bem longe do radical dualismo platônico, é só um esquema para demonstrar a limitação natural do homem com suas fraquezas, suas múltiplas contingências, superáveis só através da comunicação gratuita da Sabedoria divina e do Espírito Santo de Deus (v. 17). Só assim o itinerário da nossa vida será reto, só assim «aprenderemos» de Deus os verdadeiros valores da existência e seremos salvos (v.18). 2ª Leitura – Filêmon 9-10.12-17 Recebe-o não mais como escravo, mas como irmão muito querido. O bilhete de poucas linhas escrito por Paulo ao amigo Filêmon para que receba seu escravo fugitivo, Onésimo, convertido pelo apóstolo, é talvez o escrito mais pessoal de Paulo, redigido pessoalmente por ele (v.19). Ele entrou no epistolário paulino e no cânon bíblico, sem dúvida, pela mensagem sintética que ele oferecia sobre o tema “quente” da escravidão e das classes sociais. Até agora, Paulo tinha enfrentado a questão de maneira tímida e por fora, preocupado só em celebrar a igualdade de todos os seres humanos diante de Deus porque todos pecadores e todos necessitados de salvação. Intui-se aqui a força revolucionária do cristianismo em relação à dignidade humana: todas as barreiras devem ser abolidas, porque em Cristo «não existe mais escravo nem livre» (Gl 3, 28) e o amor fraterno deve unir todos num afeto mútuo (Rm 12, 10) Na carta a Filêmon o processo é completado. Evangelho – Lucas 14, 25-33 Quem não renuncia a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo. Com uma linguagem dura, de caráter semita («odiar» na linguagem oriental que significa também um «amar menos»), Jesus nos convida a uma atenta reflexão antes da escolha pelo reino de Deus. É este o sentido das duas parábolas, exclusivamente lucanas, da torre e da guerra (vv. 28-32). A decisão pelo reino de Deus requer maturidade e seriedade, perseverança e esforço, inteligência e planejamento. Depois de séria reflexão deve-se fazer uma escolha radical que implica total doação, total amor por Cristo, total liberdade interior. O versículo-chave que ilumina todo o texto e sintetiza a mensagem é o 33: «Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!» Sublinhando a totalidade («tudo o que tem»), com um destaque que lhe genial, Lucas re-apresenta sua teologia da pobreza, como radical seguimento de Jesus. Lectio Divina – As condições para poder ser discípulo e discípula de Jesus Oração inicial Ó Deus, no início da meditação desta tua Palavra, luz e vida de nosso ser, dá-nos a sabedoria do teu Espírito, para que como verdadeiros discípulos e discípulas, possamos buscar o que realmente vale, que é teu Filho Jesus, que sempre nos fala a verdade, que sempre nos indica o caminho e que sempre entrega sua vida para nos salvar e os tornar teus filhos. LECTIO a) Il texto: Lucas 14,25-33 25Grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse: 26“Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 27Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim não pode ser meu discípulo. 28Com efeito, qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem suficiente para terminar? Caso contrário, 29ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar dizendo: 30‘Esse homem começou a construir e não foi capaz de acabar!’ 31Ou, ainda, qual o rei que, ao sair para guerrear com ouro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? 32Se ele vê não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz. 33Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!” b) Momento de silêncio: Deixemos que a voz do Verbo ressoe em nós. MEDITATIO a) Perguntas: - Se alguém vem a mim, mas não odeia.... não pode ser meu discípulo: Estamos convencidos que é necessário nos separar de tudo o que prende nosso coração: afeitos recebidos e doados, a própria vida, para seguir Jesus? - Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim não pode ser meu discípulo: Carrego comigo a lógica da cruz, isto é a lógica do amor gratuito? - Os meios para chegar a meta: a capacidade de pensar faz parte da minha vida ou esta se reduz um impulso interior que vai se esvaziando com o tempo que corre sobre os eventos cotidianos? - Para evitar que todos os que vêem começam a rir: vale também para mim a comparação de quem começa a seguir o Senhor e depois não tem os meios humanos, isto é a gozação pela incapacidade? - Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo: estou convencido que a chave do seguimento seja a pobreza de não possuir ou a bem-aventurança da pertença? b) Chave de leitura: • v. 25-26. Como uma grande multidão ia atrás dele, Jesus se voltou e lhes disse: «Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo». Para Jesus não interessa contar as pessoas que vão até ele. Suas palavras são fortes e libertam de toda ilusão. Quem não sabe o que significa odiar? Se eu odeio uma pessoa, fico longe. Esta discriminação entre Jesus e os afetos familiares é a primeira exigência do discípulo. Para aprender de Cristo é necessário encontrar nele o centro de todo amor e interesse. O amor de quem segue o Senhor não é um amor de posse, mas de liberdade. • v. 27. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim não pode ser meu discípulo. O único laço que ajuda a seguir Jesus é a cruz. Este símbolo do amor que não vira as costas, capaz de ser palavra também quando o mundo silencia tudo com a condenação e a morte, é a lição do Rabi nascido na menor aldeia da Judeia. • v. 28. Qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Construir uma torre requer uma despesa não indiferente para quem possui poucos recursos. O bom desejo de construir a si mesmos não é suficiente para consegui-lo, é necessário sentar, calcular as despesas, buscar os meios para terminar o trabalho. A vida do homem é incompleta e insatisfeita porque tanto o projeto da construção é maravilhoso quanto as dívidas do canteiro enormes! Um projeto sob medida: não saber calcular o que é a nossa capacidade de realizar não é sabedoria de quem depois de ter trabalhado a terra espera a chuva, mas a inconsciência de quem espera a floração e a colheita de sementes lançadas entre as pedras e os espinheiros, sem experimentar o cansaço de preparar a terra. • v. 29-30. Para evitar que, lançados os alicerces e não poder terminar a obra, todos aqueles que vêem comecem a gozar, dizendo: Este começou a construir, mas não foi capaz de terminar a obra. A gozação dos outros que chega como granizo sobre os sentimentos de esperança de quem queria chegar ao topo só com suas próprias focas é o resultado da própria arrogância revestida de boa vontade. Quantas humilhações cada um carrega consigo, mas quanto pouco fruto destas experiências de dor! Ter os alicerces e não terminar a construção, é pouco consolo. Os desejos que evaporam algumas vezes são bons indicadores da nossa ingênua auto-afirmação... mas nós não os compreenderemos até que continuamos a cobrir o insucesso e a desilusão com o despertar do mundo encantado dos sonhos da infância. Jesus nos pede para nos tornarmos crianças sim, mas uma criança não vai pretender construir uma torre “verdadeira”! Ficará satisfeito com uma pequena torre à beira do mar, porque conhece bem suas capacidades. • vv. 31-32. Ou, ainda, qual o rei que, ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz. Combater para ter uma real supremacia sobre todos os outros é, por si, uma batalha perdida. Porque o homem não é chamado a ser rei da dominação, mas senhor de paz. E aproximar-se do outro enquanto ainda está longe é o sinal mais bonito da vitória onde ninguém perde e ninguém vence, mas todos se tornam servos da única verdadeira soberana do mundo: a paz, a plenitude dos dons de Deus. • v. 33. Portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo. Se listarmos os vícios capitais, descobrimos as modalidades de posse de que fala Jesus. Um homem que estrutura sua vida sobre o ter é uma pessoa viciosa: que pretende ter poder sobre tudo (soberba), de gozar a seu bel-prazer (luxúria), de extrapolar como um direito que lhe pertence (ira), de ser lotado de bens (gula), de roubar o que é dos outros (inveja), de reter para si (avareza), de se refugiar na apatia sem se comprometer com coisa alguma (acídia). O discípulo, no entanto, que anda pelo caminho das virtudes vive dos dons do Espírito: uma pessoa que tem o sentido das coisas de Deus (sabedoria) e doa sem o segurar, que penetra o significado existencial de tudo o que é Vida (intelecto), que escuta a voz do Espírito (conselho) e torna-se porta-voz de todo discernimento (conselho), que sabe se proteger do limite de seu ser homem (fortaleza) e não cai na tentação da transgressão, que sabe conhecer os segredos da história (ciência) para construir horizontes de bem, que não se dá o direito, ter o pleno sentido da realidade, mas acolhe a fonte do divino (piedade), que nasce dos abismos sem temer sua pequenez. Um discípulo assim é outro Cristo. c) Reflexão: O coração do homem é uma rede de laços. Laços de ternura e de gratidão, laços de amor e de dependência, laços que não param com tudo o que é sentimento. Jesus fala dos laços de sangue: pai, mãe, esposa, filhos, irmãos, irmãs e de laços com a própria vida que na mentalidade semita é simbolizada pelo sangue. Mas o coração deve estar livre destes laços para poder ir com Ele e criar um novo laço que dá vida porque deixa à pessoa a liberdade de ser aquilo que é. Todo discípulo tem uma só tarefa: a de aprender, não de depender. Os laços de sangue criam dependência: quantas chantagens afetivas impedem aos homens construir a torre de sua vida. Quantas vezes essas palavras: Se me amas, age assim! Ou: Se dizes que me queres bem, não faças isso... A própria vida pode te prender quando te amarra ao que não vai fisiologicamente ou ao que pensas pelos condicionamentos de uma história atribulada ou ao que escolhes desordenadamente por uma vontade enfraquecida pelas teias de chantagens e pressões. A cruz não amarra, aperta para que tudo o que carregas em ti seja derramado, sangue e água, até a última gota: toda a tua vida como dom que não espera nada em troca. Pertencer mais que possuir: o segredo do amor gratuito do Mestre e do discípulo. O que segue Jesus não é um discípulo qualquer que aprende uma doutrina, torna-se discípulo amado, capaz de narrar as maravilhas de Deus quando o fogo do Espírito fizer dele uma chama no candeeiro do mundo. Oração Salmo 22 O Senhor é o meu pastor, nada me falta. Ele me faz descansar em verdes prados, a águas tranqüilas me conduz. Restaura minhas forças, guia-me pelo caminho certo, por amor do seu nome. Se eu tiver de andar por vale escuro, não temerei mal nenhum, pois comigo estás. O teu bastão e teu cajado me dão segurança. Diante de mim preparas uma mesa aos olhos de meus inimigos; unges com óleo minha cabeça, meu cálice transborda. Felicidade e graça vão me acompanhar todos os dias da minha vida e vou morar na casa do Senhor por muitíssimos anos. Oração final Diante de vossa cruz, Senhor, que vossa bondade nos conceda meditar sempre no coração aquilo que vos dizemos com nossos lábios. Amém! Homepage |