Comentário às Leituras e Lectio Divina deste XVIII Domingo do Tempo Comum

XVIII Domingo do Tempo Comum

Comentário

1ª Leitura – Eclesiastes 1,2; 2,21-23

Que proveito tira o homem de todo o seu trabalho?

Que proveito existe para o homem com todo o seu trabalho? Com o pseudônimo de Coelet, «o Presidente da assembleia», ou o Eclesiastes da tradução latina, se esconde uma das personalidades mais fascinantes e «intrigantes» da sabedoria bíblica. Enquanto a sabedoria tradicional, como o livro dos provérbios, se entregava feliz à vida presente como única riqueza, ou se deixava levar pela ordem sábia do cosmo criado por Deus, Coelet descobre na vida terrena, igual para o louco e sábio, mais o aspecto da miséria do que o da sorte. Coelet vê um mundo que é «vaidade», «hebel» em hebraico (v. 2), termo preferido que indica a transitoriedade do sopro, do vapor que desaparece com o primeiro vento; é o vazio, o nada, o absurdo. Coelet destaca no capítulo 2 de seu livro a vã pretensão da própria sabedoria e absurdidade do prazer e do trabalho. O real destino das riquezas acumuladas durante noites sem dormir, com grandes preocupações e entregá-las nas mãos de um herdeiro, talvez louco, é marcado com a fórmula desanimadora e sem perspectiva: «Também isto é vaidade» (vv. 21 e 23)

2ª Leitura – Colossenses 3, 1-5.9-11

Buscai as coisas do alto, onde se encontra Cristo.

A Igreja das origens para expressar o mistério pascal não falou só de «ressurreição», mas também de «exaltação» assim que Cristo de «sua condição de servo em forma humana» passa na Páscoa à da glória divina (Fl 2,7). Da terra ao céu, da humanidade, em que a divindade é escondida, ao esplendor claro da divindade: este é o sentido e o movimento que está presente no mistério pascal. O mesmo esquema «vertical» é agora aplicado ao cristão, que no batismo e na vida deve viver a mesma experiência pascal do Cristo. «Céu» e «terra» também para nós se contrapõem. O sentido da antítese não é porém um convite ao desprezo das realidades terrenas criando uma religião de evasão e de alienação. O contraste torna-se mais claro se o formularmos com as palavras dos versículos 9-10 do texto da carta aos Colossenses proposto pela liturgia de hoje: o «mundo daqui» e o «velho homem» é a «carne», o «pecado» que o cristão deve deixar para trás porque os sepultou na fonte batismal (Rm 6, 2-7). O «mundo lá de cima» é, no entanto, o «homem novo», o «espírito», a «graça» que são a realidade presente do batizado.

Evangelho – Lucas 12, 13-21

O que preparaste, para quem ficará?

O rico é louco porque não pensa à «vaidade» do possuir e esquece a única realidade autenticamente consistente que é o juízo de Deus sempre presente. A parábola já estava esboçada em seu primeiro significado no termo «vaidade» do Coelet ou numa cena paralela do Sirácide (Sb 11, 18-19). A parábola, porém, reflete também a tensão da primeira geração cristã que esperava com ansiedade a iminente volta de Cristo juiz salvador. Numa semelhante perspectiva seria loucura acumular as riquezas e construir a existência sobre realidades frágeis e incapazes de superar a prova do juízo divino. O «hoje» é, pois, o tempo da decisão e não o mítico «depois» de um amanhã que não nos pertence.

Lectio Divina

As preocupações com as riquezas afastam de Deus e impedem de servir próximo

1. Oração inicial

Ó Deus, que entregas ao trabalho do homem as imensas riquezas da criação, faze que jamais falte o pão na mesa de cada um dos teus filhos, e desperta em nós o desejo de tua palavra, para que possamos saciar a fome de verdade que inseriste em nosso coração. Por Cristo, teu Filho e nosso Senhor. Amém.

2. Leitura orante da Palavra

Naquele tempo, 13alguém do meio da multidão, disse a Jesus: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo”. 14Jesus respondeu: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?” 15E disse-lhes: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens”. 16E contou-lhes uma parábola: “A terra de um homem rico deu uma grande colheita. 17Ele pensava consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. 18Entao resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com meus bens. 19Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!’ 20Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Ainda esta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?’ 21Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”.

3. Meditando a Palavra – Meditatio

3.1. Chave de leitura:

O texto proposto pela liturgia neste 18º Domingo do Tempo Comum faz parte do discurso bastante longo de Jesus sobre a confiança em Deus que afasta todo temor (Lc 12, 6-7) e sobre a abertura à providência de Deus (Lc 12, 22-32). O trecho deste domingo, de fato, encontra-se no meio destes dois textos. Eis alguns ensinamentos apresentados por Jesus, antes que fosse interrompido por “alguém da multidão” (Lc 12, 13), sobre esta confiança e abertura:

Lc 12, 4-7: A vós meus amigos, digo: Não temais aqueles que matam o corpo e depois não podem fazer mais nada. Mostrar-vos-ei quem deveis temer: temer Aquele que, depois de ter matado, tem o poder de lançar no fogo do inferno. Sim, vos digo, temei a Este. Cinco pássaros não valem mais de duas moedas? No entanto, nem nenhum deles é esquecido por Deus. Também os cabelos da vossa cabeça são todos contados. Não temais, vós valeis mais que muitos pássaros.

Lc 12, 11-12: Quando vos levarem diante das sinagogas, dos magistrados e das autoridades, não vos preocupeis com que argumentar ou com que dizer; porque o Espírito Santo vos ensinará naquele momento o que é preciso dizer.

É exatamente neste ponto que o homem interrompe o discurso de Jesus, manifestando a própria preocupação nas questões de herança (Lc 12, 13). Jesus fala para não ter “medo daqueles que matam o corpo e depois não podem fazer nada” (Lc 12, 4) e aquele homem não entende o significado das palavras de Jesus dirigidas aos que ele reconhece como “meus amigos” (Lc 12, 4). Pelo evangelho de João sabemos que o amigo de Jesus é aquele que conhece Jesus. Em outras palavras, conhece tudo aquilo que ele ouviu do Pai (Jo 15, 15). O amigo de Jesus deveria saber que seu Mestre está enraizado em Deus (Jo 1, 1), e que sua única preocupação consiste só em buscar realizar a vontade daquele que o mandou (Jo 4, 34). O conselho e o exemplo de Jesus aos seus amigos de não se preocupar com as coisas materiais porque “a vida vale mais que o alimento e o corpo mais que a roupa” (Mt 6, 25). Neste contexto escatológico Jesus lembra: “Cuidai de vós mesmos, para que os vossos corações não sejam marcados pelos vícios, pelas bebedeiras, pelas prementes preocupações desta vida” (Lc 21, 34).

Portanto a pergunta daquele homem que pede a Jesus dizer ao “irmão que divida a herança” (Lc 12, 13) é supérflua diante de Deus. Jesus se nega a ser juiz entre as partes (Lc 12, 14) como no caso da mulher adúltera (Jo 8, 2-11). Percebe-se que para Jesus não interessa por quem dos dois tem razão. Ele fica neutral na questão entre os dois irmãos porque seu reino não é deste mundo (Jo 18, 36). Este comportamento de Jesus reflete a imagem que nos apresenta Lucas de Jesus, manso e humilde. O acúmulo dos bens materiais, a herança, a fama, o poder, não entram na lista dos valores de Jesus. Ele de fato usa a questão dos dois irmãos para insistir que “a vida não depende dos bens” (Lc 12, 15) também se abundantes.

Como seu costume, também aqui Jesus nos ensina através de uma parábola, em que nos apresenta “um homem rico” (Lc 12, 16) diríamos um bilionário que não sabe o que fazer de seus bens tanto são abundantes (Lc 12, 17). Lembra-nos que este tal rico opulento, todo fechado em si mesmo, não se dá conta da miséria de Lázaro (Lc 16, 1-31). Certamente que este rico não o podemos definir como justo. Justo é aquele que como Jó partilha com os pobres aqueles bens recebidos da providência de Deus: “porque socorria o pobre que pedia ajuda, o órfão que nada tinha. A bênção do moribundo descia sobre mim e ao coração da viúva infundia alegria” (Jó 29, 12-13). O rico da parábola é o homem louco (Lc 12, 20) que tem o coração cheio dos bens recebidos, esquecendo-se de Deus, sumo e único bem. Ele “acumula tesouros para si e não enriquece diante de Deus” (Lc 12, 21). Em sua loucura ele não percebe que tudo lhe é dado graças à providência de Deus, não só os bens, mas também sua vida. As palavras da própria parábola destacam isso:

A narração: “O terreno [...] tinha proporcionado uma ótima colheita” (Lc 12, 16).

A vida: “esta mesma noite te será pedida a tua vida” (Lc 12, 20).

Não é a riqueza em si mesma que destaca a loucura deste homem, mas sua avareza que revela sua falta de juízo. Ele, de fato, afirma: “Minha alma, tens a disposição muitos bens por muitos anos; descansa, come, bebe e alegra-te” (Lc 12, 19). A atitude do sábio é, no entanto, muito diferente. Vemo-lo, por exemplo, encarnado na pessoa de Jó que exclama com total desprendimento: “Nu sai do seio de minha mãe, e nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou, seja bendito o nome do Senhor!” (Jo 1, 21). A tradição sapiencial nos deixou ensinamentos sobre a atitude justa diante da riqueza: Pr 27, 1; Eclo 11, 19; Ecl 2, 17-23; 5, 17-6, 2. Também o Novo Testamento nos alerta sobre isto: Mt 6, 19-34; 1Cor 15, 32; Tg 4, 13-15; Ap 3, 17-18.

3.2. Perguntas para orientar a meditação e a atualização:

● O que mais me impressionou neste texto e na reflexão?

● O que te diz o fato de Jesus permanecer neutral diante da questão do homem rico?

● Acreditas que a avareza tem a ver muito com a condição social em que alguém se encontra?

● Acreditas na providência de Deus?

● Estás consciente que o que possuis te é dado por Deus, ou te sentes domo absoluto de teus bens?

4. Oratio

1Cronácas 29:10-19

«E Davi entoou um louvor ao Senhor na presença de toda a assembléia: “Louvado sejas, ó Senhor, Deus de Israel e Pai nosso, desde sempre para sempre. A ti, Senhor, a grandeza, o poder, o esplendor, o domínio e a majestade. Tudo no céu e na terra te pertence. A realeza pertence a ti, Senhor, que te elevas como cabeça acima de tudo. Tua é a riqueza e a prosperidade, tu dominas sobre tudo, em tua mão está a força e o poder, por tua mão tudo se torna grande e forte. E agora, nosso Deus, nós te damos graças e louvamos teu nome glorioso. E continuou: “Ora, quem sou eu, quem é meu povo, para sermos capazes de fazer tal doação? Foi porque tudo vem de ti e nós te damos o que de ti recebemos. Nós, somos migrantes que vivem na tua presença, forasteiros como todos os nossos antepassados. Qual sombra passam nossos dias aqui na terra onde não há esperança. Senhor, nosso Deus, toda esta abundância, que juntamos para construir uma casa para teu santo nome, tudo isso vem de tua mão e pertence a ti. Eu sei, meu Deus, que tu examinas os corações e te comprazes com a sinceridade: foi de

coração sincero que te dediquei todas estas coisas, e vi o povo aqui reunido com imensa alegria oferecer-te este dom voluntário. Senhor, Deus de nossos pais Abraão, Isaac e Israel, conserva sempre esta generosa disposição de coração no teu povo. Faze que seus corações estejam voltados para ti. E dá a meu filho Salomão um coração íntegro, para que observe os mandamentos, preceitos e decretos e faça tudo para construir o edifício como o planejei».

5. Contemplatio

Salmo 119:36-37

Inclina meu coração para teus testemunhos

e não para a avareza.

Desvia meu olhar para eu não ver as vaidades,

faze-me viver no teu caminho.




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